 mão
crianças soluçando. Havia apenas um punhado de homens
entre eles, aleijados, covardes e avôs.
Sor Jorah dizia que o povo daquele país chamava a si próprio
lhazareno, mas os dothrakis o chamavam de haesh rakhi, os
Homens-Ovelhas. Em outros tempos, Dany poderia tê-los
tomado por dothraki, pois possuíam a mesma pele acobreada
e os olhos amendoados. Agora, pareciam--lhe estranhos,
atarracados e de rosto achatado, com os cabelos negros
cortados curtos de forma estranha. Eram pastores de ovelhas
e comedores de vegetais, e Khal Drogo dizia que pertenciam
ao sul da curva do rio. O capim do mar dothraki não se
destinava a ovelhas.
Dany viu um rapaz saltar e correr para o rio. Um cavaleiro
cortou-lhe o caminho e o fez virar--se, e os outros o
encurralaram, fazendo estalar os chicotes em seu rosto,
obrigando-o a correr para lá e para cá. Um galopou atrás dele,
chicoteando-o nas nádegas até lhe deixar as coxas vermelhas
de sangue. Outro o apanhou pelo tornozelo, com uma
chicotada que o fez estatelar-se. Por fim, quando o rapaz
conseguia somente rastejar, fartaram-se da brincadeira e
enfiaram-lhe uma seta nas costas.
Encontrou Sor Jorah junto ao portão despedaçado. Usava
uma capa verde-escura sobre a cota de malha. Suas manoplas,
grevas e elmo eram de aço cinza-escuro. Os dothrakis o
tinham chamado de covarde quando pusera a armadura, mas
o cavaleiro cuspira insultos de volta, os ânimos tinham se
exaltado, a espada longa colidira com o arakh, e o guerreiro
cuja troça fora mais sonora tinha sido deixado para trás,
sangrando até a morte.
Sor Jorah ergueu o visor de seu elmo de topo achatado ao se
aproximar.
- O senhor vosso esposo a espera na vila.
- Drogo não se feriu?
- Alguns golpes - respondeu Sor Jorah -, nada de mais. Matou
hoje dois khals. Primeiro Khal Ogo, e depois o filho, Fogo,
que se tornou khal quando Ogo caiu. Seus companheiros de
sangue cortaram os sinos dos cabelos deles, e agora cada passo
de Khal Drogo ressoa mais alto que antes.
Ogo e o filho tinham partilhado o banco elevado com Drogo
no banquete de batismo onde Viserys fora coroado, mas isso
acontecera em Vaes Dothrak, à sombra da Mãe das
Montanhas, onde todos os cavaleiros são irmãos e todas as
querelas são postas de lado. No campo, as coisas eram
diferentes. O khalasar de Ogo estava atacando a vila quando
Khal Drogo o pegou. Dany perguntava a si mesma o que
teriam pensado os Homens-Ovelhas quando viram pela
primeira vez a poeira levantada pelos seus cavalos de cima
daquelas muralhas de barro rachado. Talvez alguns, os mais
novos e mais tolos, que ainda julgavam que os deuses
escutavam as preces dos homens desesperados, a tivessem
tomado por salvamento.
Do outro lado da estrada, uma jovem que não era mais velha
que Dany soluçou numa voz fina e frágil quando um
cavaleiro a atirou para cima de uma pilha de cadáveres, de
barriga para baixo, e se enterrou nela. Outros cavaleiros
desmontaram para aguardar a sua vez. Era aquele o tipo de
salvamento que os dothrakis traziam aos Homens-Ovelhas.
Sou do sangue do dragão, recordou Daenerys Targaryen a si
mesma enquanto virava o rosto. Apertou os lábios, endureceu
o coração e continuou a seguir para o portão,
- A maior parte dos guerreiros de Ogo fugiu - disse Sor Jorah.
- Mesmo assim, pode haver até dez mil cativos.
Escravos, pensou Dany. Khal Drogo os levaria ao longo do
rio até uma das vilas da Baía dos Escravos. Quis chorar, mas
disse a si mesma que tinha de ser forte. Isto é a guerra, é
assim que ela é, é este o preço do Trono de Ferro.
- Disse ao khal que devíamos rumar a Meereen - Sor Jorah
continuou. - Pagarão melhor preço do que ele obteria de uma
caravana de escravos. Illyrio escreve que tiveram uma praga
no ano passado, e por isso os bordéis estão pagando o dobro
por garotas saudáveis, e o triplo por rapazes com menos de
dez anos. Se crianças suficientes sobreviverem à viagem, o
ouro pagará todos os navios de que precisarmos e contratará
os homens para navegá-los.
Atrás deles, a moça que estava sendo violentada soltou um
som de cortar o coração, um longo lamento soluçante que
durava, durava, durava. A mão de Dany apertou as rédeas
com força e virou a cabeça da prata.
- Faça-os parar - ordenou a Sor Jorah.
- Khaleesi? - o cavaleiro parecia perplexo.
- Faça o que digo. Quero que os pare agora - falou ao seu khas
com o tom duro dos dothrakis. - Jhogo, Quaro, vão ajudar
Sor Jorah. Não quero mais violações.
Os guerreiros trocaram um olhar desconcertado. Jorah
Mormont trouxe seu cavalo para mais perto.
- Princesa - disse -, tem um coração gentil, mas não
compreende. Foi sempre assim. Estes homens derramaram
sangue pelo khal. Agora reclamam a recompensa.
Do outro lado da estrada a jovem ainda chorava, numa
língua aguda e cantante, estranha aos ouvidos de Dany. O
primeiro homem já tinha se despachado, e o segundo tomara-
lhe o lugar.
- Ela é uma mulher-ovelha - disse Quaro em dothraki. - Não é
nada, kbaleesi. Os cavaleiros a estão honrando. Os Homens-
Ovelhas dormem com ovelhas, é sabido.
- É sabido - ec